Veículos interceptados em Itatinga seriam vendidos criminosamente na Colômbia

A equipe do (TOR) Tático Ostensivo Rodoviário evitou que dois veículos alugados irregularmente fossem repassados de maneira criminosa, na fronteira do Brasil com a Colômbia. A abordagem dos policiais ocorreu na madrugada desta quinta-feira, dia 03, na praça de pedágio de Itatinga, na Rodovia Castelo Branco.   Os policiais desconfiaram das informações desencontradas dadas pelos motoristas dos dois veículos, que segundo as autoridades perceberam algo errado quando perceberam que os veículos estavam trafegando como se fosse um comboio. O primeiro motorista dirigia um GM/Tracker, e disse que alugou o carro e que pretendia ir até a cidade de Corumbá-MS para passar o final de semana prolongado. Ele também adiantou que o condutor do outro veículo, um MBenz/C180, era amigo e iria com ele para a mesma cidade. Sobre o contrato de locação do automóvel o condutor apresentou uma foto do contrato, armazenada no aplicativo de conversas WhatsApp, porém o nome que constava no documento não batia com o

Livro “Continuo Preta” conta vida de Sueli Carneiro, história na 1ª pessoa do plural

Livro “Continuo Preta” conta vida de Sueli Carneiro, história na 1ª pessoa do plural


Escrita pela jornalista Bianca Santana, a biografia “Continuo Preta”, que narra a história de Sueli Carneiro, uma das maiores intelectuais brasileiras e expoente do movimento negro, será lançada na próxima terça-feira (11), pela Companhia das Letras.

O livro mostra Sueli Carneiro, fundadora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, e suas exuberantes conquistas, que a tornaram um símbolo para as mulheres negras do país e o estopim de um movimento que culminou em lideranças como Marielle Franco, Djamila Ribeiro e a própria autora da biografia, Bianca Santana.

“Eu tenho a honra e a alegria de ser da mesma geração de Aurea Carolina (deputada federal), Elaine Mineiro (vereadora em São Paulo), entre tantas outras que atuam no movimento negro a partir de um lugar aberto por outras mulheres negras. Sem dúvida, Sueli Carneiro foi fundamental para abrir esses caminhos”, afirma Santana.

O texto apresenta histórias que a vida discreta de Sueli Carneiro não havia permitido que chegassem ao público. Mas nas primeiras entrevistas, como explica Santana, a filósofa resistiu. “Ela disse, desde o primeiro momento, que não tinha interesse em contar da vida dela, que achava que não havia nada especial, a ideia era compartilhar repertório de luta. Todas as perguntas políticas rendiam muito, e as perguntas pessoais, no começo, não rendiam nada.”

O texto de Bianca Santana mostra a infância de Carneiro e o tempo de colégio, quando era “a menina preta da escola”: “Essa menina preta, somente ela de preta na escola, sempre soube o quão racista era o país. Isso acompanha Sueli ao longo da vida, ela sempre soube que era preta, mas sempre soube que ocupar o mundo branco era essencial para outras pretas e pretos desse país.”

A jornalista encerrou a entrevista com uma pergunta que joga luz sobre o entendimento da trajetória de sua biografada. "Uma das dificuldades de fazer a biografia da Sueli Carneiro é contar uma história individual, quando a biografada tem certeza de que toda sua atuação política foi coletiva. Então, como narrar na primeira pessoa do singular, uma história que é primeira pessoa do plural?"

Onde os caminhos de Bianca Santana e Sueli Carneiro se encontraram


Bianca Santana - Eu conheci a Sueli antes de nossos caminhos se cruzarem, lendo Sueli Carneiro. Ali perto de 2005 e 2006, junto com outras autoras negras, como Lélia Gonzales e Beatriz Nascimento, mas eu ainda não fazia distinções entre elas. Em 2016, eu me deparei com um texto da Sueli, que ela escreveu com a Cristiane Cury, chamado “O poder feminino no culto aos Orixás”.

Esse texto dialoga demais com as questões que fazem sentido para mim hoje. Aí, me veio a vontade de entrevistá-la, mas não é simples entrevistar a Sueli, eu já tinha tentado umas abordagens e nunca dava certo. No começo de 2017, eu propus uma entrevista para a revista CULT, e eles me deram a capa. A Sueli disse que tudo que tinha para dizer, já estava escrito, e que depois do golpe de 2016, a geração dela tinha falhado e não tinha contribuições. Essas justificativas para não dar a entrevista já eram muita coisa.

Conversamos mais um pouco e ela acabou topando. No dia do lançamento da edição, na sede da CULT na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, tinha tanta gente preta que parecia que era ensaio da Pérola Negra (escola de samba da Vila Madalena), não tinha mais lugar para sentar. Depois dessa entrevista, muitas pessoas me perguntavam se eu faria a biografia da Sueli. Dois anos depois, eu comecei a escrever um livro que sairia pela Companhia das Letras.

Em 2018, a Marielle (Franco) morreu, e eu decidi que só tocaria projetos que realmente fizessem sentido em minha vida. Aquele livro que eu tinha começado, já não fazia sentido. Então, eu sentei com a minha editora e comuniquei que não ia mais escrever. Expliquei que não fazia sentido, que estávamos em um momento da história do país, especialmente das mulheres negras, muito sensível, e que eu não gastaria energia com algo que não fosse primordial. Então, ela me sugeriu escrever a biografa de Sueli Carneiro, e eu fui atrás dela.

Numa manhã de sábado, ela me perguntou: “Você quer escrever essa biografia?”. Ali, eu conheci melhor a Sueli Carneiro. Essa pergunta deu o tom da nossa relação dali em diante. Eu quis escrever, então as dificuldades e os problemas eram meus.

As biografias de pessoas que ainda estão vivas, quando autorizadas, costumam ter por perto sempre o olhar atento do biografado. Como foi a relação com Sueli?

Ela disse, desde o primeiro momento, que não tinha interesse em contar da vida dela, que achava que não havia nada especial, a ideia era compartilhar repertório de luta. Todas as perguntas políticas rendiam muito, e as perguntas pessoais, no começo, não rendiam nada. Então, eu comecei a provocar a Sueli para que ela falasse mais sobre a vida pessoal, pois isso ajuda as pessoas a entenderem a luta.

Por seis meses, eu passei a ir para a casa dela duas vezes por semana. Quando pensamos no formato, eu propus que seguíssemos o que o Cuti fez na biografia do José Correia Leite (...E disse o velho militante José Correia Leite), que também é parecido com o que o Alex Haley fez em “A autobiografia de Malcom X”, que é um registro da entrevista, em ambos os casos têm até as perguntas.

A editora topou, a Sueli também, e achamos que tinha sentido. Assim, foi escrita a primeira versão do livro, ou 100 páginas da primeira versão. Mas, no meio do caminho, meu lado jornalista falou mais alto, eu queria entrevistar outras pessoas, buscar contraditório, encontrar documentos, enfim...Quando a Sueli leu, ela também achou que não era mais um livro para se escrever na primeira pessoa.

Aí, voltei e reescrevi tudo, mudando a perspectiva. Eu avisei Sueli que não publicaria nada sem que ela autorizasse, é algo que não se faz no jornalismo, mas não era minha intenção com essa biografia. Após ler o livro, ela foi extremamente generosa. Tem dois episódios que ela pediu para retirar e me deixou colocar em outra versão, que eu estou autorizada a publicar caso ela morra antes de mim (risos).

Onde você acha que a obra da Sueli Carneiro está? Quem são os leitores e leitoras de Sueli Carneiro?

Na militância negra, especialmente no movimento de mulheres negras. Expandindo um pouco, no movimento negro. Expandindo mais, na academia. A Sueli é muito lida na área de Direito, o que é surpreendente, porque ela não é advogada e nem fez especialização na área de Direito, mas como ela criou um programa no Geledes chamado “SOS Racismo”, e ela é fundamental para configurar racismo como violação de direito humano, no Brasil e internacionalmente, ela é muito lida no Direito.

Mas também em outras áreas do conhecimento, como a Ciência Sociais, em menor escala. Mas ainda é algo localizado, muito aquém do que deveria ser, se nós priorizássemos um pensamento brasileiro a partir de vozes negras, não só de vozes hegemônicas.

Sueli Carneiro disse, em 2000: “Entre a esquerda e a direita, eu continuo preta”. 21 anos depois, essa frase ainda faz sentido?

Ela é muito atual para a Sueli Carneiro. Para as mulheres negras, no sentido de um movimento político autônomo. Então, quando a gente fala “mulher negra” no movimento de mulheres negras, a gente fala de um sujeito político autônomo dos partidos políticos, do movimento feminista e do próprio movimento negro, com políticas e valores próprios.

Para mim, essa frase é muito singular de quem é a Sueli Carneiro, que está em um lugar de autonomia para assumir uma crítica, que tem uma ação política de esquerda, mas que tenciona a relação com a própria esquerda. Se alguém já leu algum texto, sabe que essa frase é para provocar a esquerda, "levar a esquerda para a esquerda".

A Sueli tem essa crítica com a esquerda, além de um incômodo com a forma como as pautas do movimento negro foram tratadas nos anos de governo do PT. Como ela olha para trás, a partir do Brasil de hoje, e vê os anos petistas?

A Sueli repete uma coisa que faz muito sentido, os partidos de esquerda identificam lideranças fortes do movimento negro, trazem essas lideranças para dentro do partido e, na estrutura partidária, essas lideranças são diminuídas e ainda perdem credibilidade no movimento, porque acabam sendo vistas como quem quer encaixar o movimento negro na estrutura partidária.

Então, grandes quadros do movimento negro não assumem posições de mesma estatura nos partidos. É inegável que o PT teve muita abertura para as demandas do movimento negro, como a Lei 10.639, de ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Mas também não dá para dizer que o PT inventou a Lei 10.639. A mesma coisa a Lei de Cotas, demanda histórica do movimento negro com muitos embates, mesmo dentro do movimento negro. Partidos foram contrários a Lei de Cotas, inclusive na esquerda.

O PT acolhe e transforma em política. Mas tem ex-ministro branco que vai no Twitter dizer que criou a Lei de Cotas, junto com outros três ministros brancos. Uma prova de como as estruturas são extremamente racistas é que o sujeito tem coragem de fazer uma postagem dessa sem citar uma única pessoa negra. Além de se apropriar de uma pauta do movimento negro, não consegue citar nem mesmo pessoas de dentro do PT. Nesse sentido, é para ficar ressentido.

Sobre a experiência escolar de Sueli, você diz que foi “solitária”. O que esse período de “única menina negra” em um colégio da Lapa deixou na Sueli Carneiro de 70 anos?

Tem muito dessa menina em quem é a Sueli Carneiro hoje. Tem muito dessa menina, que cresceu numa família negra com muita consciência racial e que sempre soube seu lugar no mundo e que sabia que fora do núcleo familiar, sofreria racismo.

Porém, sabia que ocupar lugares primordialmente brancos era importante para abrir espaço para quem viesse depois, e também para criar oportunidades na própria trajetória de vida. Essa menina preta, somente ela de preta na escola, aproveitou demais a colégio, mas sempre soube o quão racista era o país. Isso acompanha Sueli ao longo da vida, ela sempre soube que era preta, e que ocupar o mundo branco era essencial para outras pretas e pretos desse país.

Hoje, temos uma série de mulheres negras que protagonizam a discussão sobre temas contemporâneos, você inclusa. Qual o tamanho da responsabilidade de Sueli Carneiro nesse processo?

Eu tenho a honra e alegria de ser da mesma geração de Aurea Carolina, Elaine Mineiro, entre tantas outras, que atuam no movimento negro a partir de um lugar aberto por outras mulheres negras. Sem dúvida, Sueli Carneiro foi fundamental para abrir esses caminhos. Marielle Franco se beneficiou da política de cotas raciais para entrar no mestrado e também se beneficiou do ProUni para estudar na PUC-RJ.

Essa possibilidade de acesso à universidade, em cursos considerados de elite, foi aberta por mulheres da geração de Sueli Carneiro, mulheres e homens. Mas falando das cotas, a Sueli é fundamental. Um dos momentos que ela diz sentir mais orgulho na vida foi em 2010, quando foi ao STF fazer a sustentação oral de defesa da constitucionalidade das cotas raciais.

Eu não tenho dúvida de que o papel da Sueli foi fundamental para que pudéssemos ocupar vários espaços hoje. Quando ela estudou filosofia na USP, na década de 1970, todos os pretos da USP cabiam em uma perua Kombi, e a Sueli sempre diz que ainda sobrava lugar, e ela abriu espaço para isso mudar. Uma das dificuldades de fazer a biografia da Sueli Carneiro é contar uma história individual, quando a biografada tem certeza de que toda sua atuação política foi coletiva. Então, como narrar na primeira pessoa do singular uma história que é primeira pessoa do plural?

Da Agência Brasil de Fato - Edição: Vinícius Segalla 

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