Mulheres indígenas chegam na reta final da caminhada de 2.000 km pela Argentina

Mulheres indígenas chegam na reta final da caminhada de 2.000 km pela Argentina, isso é importante pois grupos de mulheres indígenas do país empreendem uma caminhada desde o dia 14 de março em direção à cidade de Buenos Aires. Elas chegarão no dia 22 de maio na capital federal, dia da plurinacionalidade dos territórios. Para o bloco sul, a caminhada total será de cerca de 1.900km, e, para o bloco norte, 1.200km, segundo estimativas recentes das ativistas. Também partiram grupos do leste e oeste do país, reunindo mulheres de diferentes nações indígenas. "Caminhamos para propor que o terricídio seja considerado um crime de lesa humanidade e lesa natureza", afirmam, em comunicado. "Sabemos que não é o melhor momento para sair dos territórios. No entanto, se ficamos em casa, continuam nos matando." O conceito de terricídio foi criado pelo movimento de mulheres indígenas para englobar as diversas formas de assassinato das formas de vida. Trata-se de feminicídio, ecocídio

Chico Pé de Pato: o justiceiro que exterminou a marginalidade da Zona Leste de São Paulo nos anos 80


Chico Pé de Pato recebia ajuda da polícia e estima-se que assassinou quase 100 pessoas na região do Itaim Paulista, Zona Leste de São Paulo. Tudo começou após ele assistir o estupro de sua esposa e filha 


Ouça o podcast sobre Chico Pé de Pato



Francisco Vital da Silva nasceu em Campo Alegre de Lourdes, sertão da Bahia, tinha 17 irmãos. Na década de 1980 ficou conhecido como o justiceiro do Jardim das Oliveiras,  bairro da  Zona Leste de São Paulo, região do Itaim Paulista. Era nessa região  que caçava e exterminava delinquentes e marginais.

Para compreender como o jovem franzindo, grisalho com pouco mais de um metro e setenta se tornou um dos mais temidos justiceiros da capital paulista é necessário rever sua história de vida. Entender seus dramas e medos. 

Então vamos lá: As décadas de 1970 e 80 foram marcadas pelo desenvolvimento urbano da capital paulista, faltava mão de obra nos canteiros da construção civil e por conta dessa demanda e motivados pelo plano Grande Milagre Econômico, ocorreu um êxodo de nordestinos e mineiros para a cidade de São Paulo.

Francisco Vital, foi um desses sonhadores que cansado das dificuldades do sertão da Bahia decidiu se arriscar na Capital e atuar na construção civil.

Francisco chegou em São Paulo no ano de 1973. E logo se posicionou profissionalmente, trabalho era o que não faltava, mal finalizava uma empreitada já aparecia outra para ocupar seu tempo. Porém um acidente interrompeu a carreira de Francisco na construção civil, despencou de um andaime, caiu em pé e como consequência adquiriu uma deficiência.

Passou a andar com dificuldade, tinha as pernas tortas na forma do que se chama 10 para as duas, fazendo alusão aos ponteiros de um relógio.

Impossibilitado de continuar nos canteiros de obras, Francisco encontrou uma nova forma de sustentar a família e seus filhos. Montou um bar no perigoso bairro em que morava o Jardim das Oliveiras, Zona Leste. 

Lembrando que o crescimento vertiginoso da capital não foi acompanhado por investimentos na segurança. Assaltos e homicídios eram comuns na periferia e Francisco veria o quanto isso iria afetar sua vida ao abrir o bar em 1982, e conseguir trabalhar no local por apenas dois anos. 

O estabelecimento era frequentado por todo tipo de pessoas inclusive a bandidagem que comprava, não pagava, brigava, o insultava e pedia para que guardasse drogas.

Francisco era irritado, não aceitava imposições, expulsava com frequência esse tipo de cliente. Porém a maioria deles não o temia. Chico era baixinho, tinha uma deficiência, e talvez, por conta disso não era visto com temor pela bandidagem. Decidiram que o estabelecimento era uma fonte de recursos, o bar foi assaltado incontáveis vezes.

O empresário não tinha como se defender, pedia ajuda para a Polícia, mas as viaturas passavam quase nunca em seu bairro. Foi então que encontrou no radialista Afanásio Jazadji, da Rádio Capital, uma maneira de exigir ações das autoridades policiais. Estava cansado, tinha medo de abrir seu estabelecimento e voltar a ser vítima de violência, porém persistia e diariamente trabalhava atrás dos balcões.

Jazadji tinha dois programas nos anos 1980, atingia um público equivalente a Um Milhão e Duzentas Mil pessoas por hora. O radialista aconselhava Francisco a procurar a polícia e elaborar B.O (Boletim de Ocorrência) e assim Francisco fez diversas vezes. 

Continuou ligando para o radialista sempre que acontecia algum incidente e era visto frequentemente na delegacia denunciando crimes e isso acabou incomodando os delinquentes da região.


Um grupo de psicopatas da pior espécie mandou um recado: "Se você voltar a procurar a polícia nós vamos barbarizar sua família".

Francisco, entretanto, não acatou as recomendações e voltou à delegacia deu nomes apontou suspeitos e chegou a ouvir das autoridades policiais de que eram pessoas já procuradas pela justiça e que não faria falta, estando eles vivos ou mortos. A desculpa das autoridades era de que não encontravam os marginais nas rondas.

Naquele mesmo dia, ao retornar para sua casa foi rendido, era uma tarde de janeiro do ano de 1984. Uma gangue com cinco elementos assaltou a residência de Francisco e violentou sua esposa Maria do Socorro Vital, e a filha de apenas 16 anos. 

Arrasado e descrente voltou para o sertão, imaginou que distante os pensamentos sobre a violência também ficariam longe.

Mas não foi isso que aconteceu. As imagens da violência ainda estavam vívidas em sua memória. No começo apenas tirava seu sono, com o passar dos dias foi se tornando ódio. E em pouco tempo movido pelo espírito de vingança, decidiu agir: Iria matar todos os envolvidos e passaria a eliminar todo vagabundo que cruzasse seu caminho.

Sua esposa e filha continuaram na Bahia, mas Francisco e seu filho Flávio de 19 anos, voltou para São Paulo após dois meses de exílio. Agora estavam armados e em busca de vingança.

O bar, empresa que montou com tanta dedicação estava destruído e cheio de buracos de bala, mas isso já não importava.

Pois, a primeira coisa que fez ao chegar na capital Paulista foi cumprir sua vingança, matou os psicopatas que violentaram a sua família e deixou um recado claro: "se a polícia não age, eu entro em ação".

Passou a realizar rondas diárias em seu Opala, 76, de porta amarela e para choque verde. Algumas vezes contava com o auxílio de comerciantes locais que também estavam cansados da insegurança, juntos caçavam os delinquentes e entregavam de 3 a 5 por noite para a polícia. 

Com o passar do tempo Pé de Pato ganhou a confiança de policiais corruptos, eles perceberam que as ações do justiceiro geravam resultados positivos na delegacia, estava reduzindo a taxa de criminalidade na região de forma vertiginosa, já não tinham assaltos e homicídios, com exceção aos executados por Francisco. Decidiram fazer vistas grossas passando inclusive a apontar e entregar fotos de vítimas cuja existência, segundo eles, não fariam diferença na terra.

A partir de então, passou a exterminar marginais ganhando fama de justiceiro. Por incrível que pareça Pé de Pato trazia segurança para a região. Mas sempre existem dois lados da moeda, a notoriedade também levou medo à população.

Os moradores da Itaim Bibi temiam sair às ruas vestidos com boné ou com roupas extravagantes. Medo que tinha uma lógica, pois realmente, Pé de Pato considerava esse tipo de moda coisa de bandido.

O Justiceiro não se escondia, e o programa de rádio do comunicador Afanázio Jazadi, que no passado era usado por francisco como uma espécie de muro das lamentações, transformou para Chico Pé de Pato em palco e palanque para celebrar seus feitos.

A projeção em torno do Justiceiro da Zona Leste cresceu, seus feitos ganharam as manchetes do principal jornal popular de São Paulo, o extinto Notícias Populares. A cobertura jornalística em torno do assassino criou uma Áurea heróica, era um misto de admiração e medo.


"Nem bem abri o boteco, senti que a barra aqui era pesada. Os vagabundos bebiam fiado, não pagavam e, ainda por cima, queriam que eu guardasse maconha pra eles. Aí estourei e comecei a pôr nego pra fora a pontapés", disse em uma das entrevista ao Notícias Populares.

Foi o jornal que apelidou o justiceiro de Chico Pé de Pato, devido a seu modo peculiar de caminhar após o acidente que ceifou seu futuro na construção civil. A primeira manchete no Notícias Populares, foi em 14 de agosto de 1985, a capa trazia em letras garrafais: “2 Irmãos Liquidados pelo Justiceiro da Zona Leste”, tratavam-se de Airton Valeriano de Souza, conhecido como Ito, e Gilmar Antônio dos Santos.

Em pouco tempo a lista de nomes divulgada pelo jornal apontava que os irmãos encabeçavam uma lista com mais de 30 nomes. A partir daí, Pé de Pato era tema diário na imprensa sensacionalista obrigando os editores a desenvolver uma série de reportagens.

A fama de pé de pato atingia toda a capital, formou-se um verdadeiro fã clube. O público aguardava as histórias de Chico Pé de Pato nos programas de Afanázio Jazadi e no jornal Notícias Populares.

Os casos de homicídios atribuídos à Chico Pé de Pato só cresciam. Dizem que ele exterminou algo em torno de 50 pessoas ligadas ao crime e alguns inocentes. Porém à boca pequena esse número era bem maior, na realidade ele dobra chegando a mais de 100 vítimas.

Apesar das especulações a quantidade de mortos é incerta e isso pouco importava pois aparentemente as ações eram vistas com bons olhos pela polícia.

A reviravolta ocorreu no dia 23 de agosto de 1985, quando Pé de Pato mata um policial à paisana com oito tiros a queima roupa e três facadas na cabeça. A partir de então o justiceiro passou a ser procurado pela Polícia.

O policial Moacir Ferreira Mello estava à paisana em um bar na região onde Pé de Pato atuava e acabou confundindo o grupo do justiceiro com assaltantes, eram sete pessoas armadas em um carro. O policial não atuava na região e para seu azar não conhecia Chico Pé de Pato.

A história do tiroteio foi publicada no dia 24 de agosto de 1985 pelo "Notícias Populares". Nas páginas policiais constava que a troca de tiro ocorreu em um botequim na avenida dos Ipês, 14-A, no Jardim dos Ipês (zona leste). 

O grupo de Pé de Pato ia para um churrasco, estacionou para "tomar um aperitivo" revidou ao ataque do policial.

Pé de Pato, já respondia a oito inquéritos seis homicídios e duas tentativas, e após o assassinato do policial passou a ser caçado por tudo isso. O capitão Conte Lopes, ficou responsável pelo Caso Pé de Pato e o primeiro local a receber a visita da Polícia e passar por busca e apreensão foi o bar do justiceiro, na avenida Academia de São Paulo, 1, sua casa, nessa investida da polícia o filho de Pé de Pato foi preso.

Pé de Pato passou a noite em Cubatão e desceu para a Praia Grande, no dia seguinte. Foi no litoral que ficou sabendo através de seu advogado que os Policiais estavam pressionando sua família. Já havia tomado conhecimento de que o portão de sua casa havia sido quebrado, as garrafas do bar foram destruídas e uma considerável quantidade de dinheiro tinha desaparecido.

Seguiu para Itaquaquecetuba, de onde ligou para a produção do programa do radialista pedindo que intermediasse sua rendição. Na realidade, durante a fuga Pé de Pato ligou duas vezes para o programa do radialista, em uma delas pediu desculpas à família do policial que foi executado explicando que o crime foi acidente. 

Chico Pé de Pato sabia que precisava se entregar, não tinha escolha, acreditava que se se fosse encontrado seria assassinado pelos Policiais. Armou um plano que envolvia seu amigo radialista Afanásio Jazadi.

O radialista acompanhado do amigo Guaracy Moreira Filho, delegado de polícia aposentado, saíram escondidos (não queriam ser seguidos) usando um Opala da produção da rádio Capital para buscar o justiceiro.



Na rua do bar, aproximadamente mil pessoas circulavam a casa de Pé de Pato em apoio ao justiceiro e dificultando qualquer ação policial. 

Quando chegou na multidão uma Kombi se aproximou e guiou o carro de Afanasio até o Bar de Pé de Pato. A multidão aplaudia e abria caminho para os dois veículos. A porta do bar se abriu e o Opala entrou no estabelecimento em ré facilitando a entrada de Pé de Pato no Porta Malas do veículo.

A cena de Pé de Pato entrando no porta-malas foi registrada pelo repórter fotográfico do Notícias Populares José Luís da Conceição, e ficou famosa por estampar a manchete do jornal, sobre a prisão do justiceiro. 

Mas não foi apenas essas as imagens registradas pelo fotógrafo ele também fez fotografou Pé de Pato pelado de frente, costas e perfil. Uma espécie de garantia, era a prova de que o justiceiro estava inteiro, e sem machucados quando se entregou para a Polícia.

A missão do radialista e do delegado agora era sair dalí e seguir em segurança até os estúdios da rádio Capital, nos Jardins, zona sul de São Paulo. O que não foi difícil já que durante todo  o percurso o Opala do radialista era escoltado por seis outros veículos de amigos de Pé de Pato para evitar interceptação da polícia.

Naquele 26 de agosto do ano de 1985, dia em que Pé de Pato se entregou para a Polícia, uma entrevista marcaria recordes de audiência para a Rádio Capital. Conversando com Afanásio ele se colocou como vítima de uma situação e de maus policiais, foi induzido ao crime e matou o policial por engano.

A entrevista foi ouvida por parte da população da Zona Leste. Os moradores do Itaim Bibi acreditavam que a prisão de Pé de Pato faria com que os índices de criminalidade na região aumentassem assustadoramente.

Com isso, cerca de 5 mil Manifestantes pedindo a liberdade do criminoso tomou as ruas próximas ao 50º DP, dificultando a entrada dos policiais ao distrito.


Também havia uma articulação política pela liberdade de Pé de Pato, líderes comunitários procuravam vereadores sugerindo a ideia de abrandar a pena do justiceiro, pois com certeza receberiam o voto de praticamente todo o bairro.

Mas, na verdade o que estava acontecendo é que Chico Pé de Pato tinha certeza que estava marcado para morrer. Tinha inimigos entre os policiais e entre os presidiários. Para os policiais  Pé de Pato era um problema, sabia demais, afinal de contas os próprios agentes da lei entregavam ao justiceiro listas de nomes para que fossem capturados. Os presos enxergavam o justiceiro como responsável pela morte de comparsas e familiares.

Alguns meses após a prisão, Chico Pé de Pato precisava ser levado para o Fórum, para concluir os tramites da prisão, porém uma multidão cercava o prédio e para abrir caminho entre a massa popular novamente foi chamado o radialista Afanásio Jazadi. Ele precisou sentar no capô do carro da polícia, e  segurando um megafone pedia para que abrissem caminho para que a viatura pudesse passar.

Pé de Pato ficou temporariamente preso no Preso no Deic (Departamento Estadual de Investigações Estaduais), e a partir daquele momento se recusava a dar entrevista sem receber nada em troca, o preço de suas palavras era algo em torno de 20 milhões de cruzeiro.

A repercussão do caso e o suporte que a Rádio Capital forneceu para que Pé de Pato se entregasse inteiro para a Polícia, não foi apreciada por grupos de marginais e a rádio sofreu um atentado.

Foi durante uma manifestação a favor de Pé de Pato que três homens atiraram contra a emissora e tentaram fugir correndo. O tiro acertou um dos vidros. Minutos depois dois autores foram alvejados. Um deles era da Zona Leste e era conhecido como Sujeira.

O julgamento de Pé de Pato foi marcado pela emoção com depoimentos sensíveis posicionando o justiceiro como herói, a depoimento das testemunhas com certeza interferiu na sentença do juíz. Francisco Vital da Silva foi condenado a seis anos de prisão, mesmo tendo feito incontáveis vítimas.

Menos de um ano após a prisão, Pé de Pato foi encontrado morto em sua cela com segundo a imprensa, com mais de 50 facadas, há quem diga que foram mais de 90 estiletadas na verdade. Isso aconteceu durante uma forte tempestade, em uma rebelião de presos na Penitenciária de Franco da Rocha, no dia 28 de janeiro de 1987.

Na região onde Pé de Pato mais atuava a dúvida sobre sua morte ainda existe, há quem defenda que tudo não passa de um plano para que o justiceiro fosse solto e pudesse viver tranquilamente longe de toda essa confusão.

Lenda essa reforçada, pois não existem registros do corpo ou sepultamento do justiceiro.

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Por Renato Fernandes Jornalista com ampla experiência, antes de ingressar na redação do Segue Rumo passou por importantes meios de comunicação da cidade onde reside (Botucatu), como Diário da Serra (20 anos), folha Serrana, Folha Regional, Revista O Lojista, blog O Grito Notícias, Solutudo. Experiente no jornalismo web e formado em Análise em Mídias Digitais e ampla experiência em SEO atuando ainda na redação, edição, revisão de textos, e produção de conteúdo para o Youtube


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