A arte de benzer: imaginário popular e as curas facilitadas pela fé nos tempos atuais


Tradicionalmente sempre se ouviu falar sobre homens e mulheres que com a força de seus rezos, mezinhas e várias práticas combinadas auxiliam as pessoas que os procuram, conseguindo diminuir os males que os afligem, sejam estes físicos, psicológicos ou espirituais.

Muito presente na cultura cristã, a figura do benzedor representa na verdade um mosaico de crenças cujas origens se perdem no tempo. Essas crenças estabelecem um elo com o grande mistério, e só conseguiram sobreviver por serem oriundas do mais puro propósito: curar e desejar o bem do próximo.

Conhecimentos ancestrais de tratamentos com ervas, banhos, emplastros, escalda-pés, as fases da lua e suas implicações, as estações do ano e suas peculiaridades, cantos e até a utilização de magia simpática fazem parte do arsenal de instrumentos que podem ser utilizados.

Após um período de invalidação e descrença, atualmente existe um movimento que procura resgatar os valores, princípios e prática do benzimento.

Não é raro que incorporem ao seu arsenal elementos contemporâneos próprios das terapias alternativas e complementares. Independente de religião, fé e a intenção de aliviar as mazelas fazem do benzedor a personificação do ouvinte receptivo, amoroso e bem intencionado.

Isso é muitas vezes suficiente. Proporcionar a oportunidade para que as pessoas se abram, verbalizem o que as aflige, exteriorizando as queixas, sem medo de julgamento, podendo buscar conselhos imparciais, alternativas e estratégias para se sentir melhor.

O fio que liga uma pessoa qualquer a sua fé, ao que faz sentido como real e divino é muito individual, particular. Tem a ver com toda a construção da sociedade e da cultura que ela mesma elegeu. Por isso, a eficiência do tratamento depende da sensibilidade e da interação entre o benzedor e o seu “paciente”. Tem que se estabelecer uma relação de confiança e respeito, mesmo que a fé do benzedor seja diferente da sua. Uma dinâmica de admiração, surpresa ou até certo mistério, que nos permita aceitar e acreditar que a interferência da boa intenção canalizada irá nos ajudar.

Uma marca registradas dos bentos autênticos é a humildade e responsabilidade em saber os seus limites de atuação. Ouvem as queixas e, quando acham que não dão conta, aconselham a busca de serviços especializados, sejam estes médicos ou espirituais, e, acima de tudo, reconhecem que “eu te benzo, mas é Deus quem te cura”.

Esse é o compromisso: ser como um cano, onde as bênçãos de Deus podem escoar e tocar os irmãos. Para que as pessoas possam acreditar nesta relação desinteressada, a consideração é o crédito. Sua vida e seu caminhar, o exemplo são imprescindíveis para atingir seu intento benfazejo.

Somos seres humanos, falhos e pequenininhos, sujeitos a todo tipo de tentação. Mesmo a água mais pura, quando passa por um cano sujo se contamina. Por isso, quem se propõe a prática de benzimento deve estar atento primeiramente para a bênção que é viver bem.

Para as armadilhas do ego não desviarem o propósito, precisamos reconhecer nossas falhas e agradecer, até mesmo pelas dificuldades. “Orai e vigiai”. Quem ouve o chamado de ser um bento, deve atentar para que seu comportamento não cause vexame, suas ações não o coloquem propositalmente em contato com energias densas. É um compromisso com algo intangível, mais forte que os vínculos familiares e sociais.

Na minha maneira de pensar, o “bem dizer” é uma manifestação que só é possível quando existe no indivíduo a verdadeira intenção de ajudar o outro, sem julgamento e sem esperar nada em troca. Somente livres preconceito e com o coração e a mente abertos para intuir o que for necessário para facilitar a reconstrução da ponte entre a pessoa que pede e a mente superior é que podemos proferir bênçãos. (Nem que para isso tenha que lançar mão de artifícios estranhos e sem sentido lógico ou prático).

Mais que uma habilidade aprendida, é um permitir-se sentir e expressar o que a pessoa necessita pra se lembrar que qualquer mau só surge no nosso caminho quando acreditamos nele e damos força. Lembrar também que a força criadora, a qual chamamos de Deus, está em tudo, e que ele atende quando pedimos, basta que tenhamos fé.

Francamente, em se tratando de energias sutis, ninguém tem certeza de nada! Não podemos atestar pelos nossos limitados sentidos, com o que está lidando, qual a origem do desequilíbrio que causa doenças e mal estar. 

Resta então confiar no sentir: o bem é bom, o mau é ruim. Simples assim, por isso não precisa ser intelectual ou fielmente doutrinado. Basta estar aberto e disponível para sentir...
Na verdade, a religião do bento é o amor. Toda religião e forma de explicar o sagrado passa por rotulações e experiências pessoais e doutrinação. O amor está ali também, mas não se limita a qualquer visão, nenhuma alcança ou consegue explicar o que se sente em estado de amor pleno, comunhão com o grande espírito criador.

Caminhe seus rezos, acordem, o amor é o caminho!

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Benzedeira do movimento “Despertar das Benzedeiras” Julho/2019.

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